That's my Ignorance.
Sonhos e desejos.

Sonhos e desejos: nem de longe são a mesma coisa. Na minha visão de mundo, quando você tem um sonho, é algo duradouro, rígido; diria que inquebrável. Pessoas não desistem de sonhos. E se desistem, é porque era um mero desejo. Eis a diferença. Desejos são passageiros, mudam, não são nada constantes; são facilmente abaláveis… Enquanto um sonho é formado por uma estrutura feita de um metal extremamente rígido e espesso, o desejo é composto por uma película de cristal.

Sempre imagino a seguinte situação…

Uma loja de conveniência em um posto de gasolina afastado da cidade; meia noite; tudo deserto; apenas um homem é responsável pelo caixa; essa é alguma região nos EUA, onde nos postos em questão, não existe frentista. Um homem armado entra em cena; ele chega em um carro preto, antigo, porém extremamente conservado. Estaciona normalmente e retira-se do automóvel. Então, caminha rumo à entrada da loja de conveniência 24 horas; ele está estupidamente calmo, o que lhe dá um forte tom de frieza. Ele entra em silêncio no estabelecimento, dá um cumprimento seco ao funcionário do caixa e se dirige à uma das prateleiras mais ao fundo do lugar. Sim, esse indivíduo sabe bem o que quer; está totalmente determinado do que tem de fazer. Um certo conforto surge de um de seus pensamentos mais clichês: “eu preciso disso, e só.”. Depois de cerca de 5 minutos vasculhando produtos e mais produtos inúteis ao seu interesse, o pobre homem que cuida da loja provavelmente já deve ter se acostumado com sua presença ali. E esse é o momento de agir. Sem nenhuma ambição sobre qualquer bem material exposto na tal lojinha, o homem misterioso saca um revólver, e em uma fração surpreendente de segundos, com uma frieza e determinação assustadoras, em um de seus desejos mais egoístas e sujos, ele aponta a arma para o funcionário do caixa e atira. Um tiro basta. É preciso mais do que isso? De maneira alguma. Na sua simples complexidade de pensar, o homem concluiu que o seu dever estava cumprido. Guarda o revólver dentro de um bolso interno de seu paletó, se posta na frente de um espelho ali perto e confere sua aparência; coisa rápida. Por fim, caminha em direção à saída, e nem por um instante sequer ousou olhar para o funcionário ferido atrás do balcão. Mais alguns passos até o seu veículo; ele abre a porta e senta no banco do motorista. Novamente confere o seu visual no espelho retrovisor. E então, surpreendentemente, retira de um dos bolsos um telefone celular, e com modos rotineiros, discou vários números. Agora atendia do outro lado da linha uma mulher. Tinha uma voz suave, mas desgastada, extremamente exausta. Depois de alguns minutos a cena muda. Dessa vez, ao invés de um carro preto estacionado corretamente, tem-se uma ambulância parada de modo desleixado; ao invés de um ambiente calmo e tranqüilo, tem-se luzes vermelhas e gritos e correria e uma maca saindo da ambulância e uma maca entrando na loja e uma maca saindo da loja e uma maca entrando na ambulância… E finalmente, um veículo vermelho, com sirenes ligadas saindo do local como se alguém estivesse à beira da morte. E estava. Ligado à aparelhos respiratórios, com a camiseta cortada e o peito envolvido em bandagens e rodeado por para-médico; eis o nosso valente frentista. Sim valente, ele está em uma luta por sua própria vida, oras! Ele não pediu por isso, não trabalhou nisso, não esperava por isso, mas ali estava ele, talvez no momento mais importante e decisivo de toda a sua vida… Horas e horas de cirurgia; hemorragias sendo estancadas; o tilintar de um objeto pequeno e metálico ao tocar um certo recipiente também metálico; suturas sendo feitas; linha e agulha trabalhando em conjunto. Um dos problemas aparentemente estava resolvido, mas apenas um. Já dizia o laudo médico que a situação era grave; resumindo, vida ou morte.

É uma situação de típico “oito ou oitenta”. Em vários sentidos. Eu fico pensando nessa situação e aí eu faço uma relação de desejo e sonho. No momento em que o gatilho do revólver foi apertado, nasceu um desejo. O tempo ridiculamente curto entre o disparo e o “abate”, seria uma espécie de amadurecimento do tal desejo, sim. E aí vem a parte que interessa: a grande diferença. Assim que o frentista foi atingido pelo tiro, sua vida entrou em um dilema: ou ela continua, ou acaba em alguns instantes. Não vou discutir os meios para isso: questões fisiológicas, psicológicas ou erros e acertos médicos. Não. Isso não interessa. O que interessa é a seguinte questão: ele vai ou não sobreviver? Digamos que se ele morrer, tudo isso significaria que essa questão não passou de um desejo: nasceu, amadureceu, e simplesmente morreu quando surgiu um impasse. Agora se esse homem sobreviver, ele nunca mais será o mesmo. Ele irá enxergar a vida com outros olhos. Dará valor a todas as pequenas coisas e momentos, e com isso, crescerá cada vez mais… E ouso dizer que assim é um sonho: ele surge de um desejo amadurecido, passa por toda e qualquer dificuldade que surgir e se fortalece cada vez mais, dando a si mesmo e à pessoa que ele pertence visões diferentes da vida e do mundo.

E o homem do carro preto? Quem mais poderia ser ele além do destino…?

House M.D.

House M.D.

Treta.

Treta.

Até onde a vida pode nos levar?

Até onde a vida pode nos levar?

Quais as suas ambições?

Quais as suas ambições?

As Luzes…

Num dia desses, estava eu viajando por algumas cidades do interior de São Paulo. As horas e horas dentro do carro percorrendo os diversos quilômetros ao longo da tarde, as conversas com as outras pessoas para as quais eu fazia companhia, a chegada ao destino da viagem; nada disso foi realmente importante. Digo, não foi isso que me fez pensar, e que de certa forma me fascinou. É. Definitivamente não foi nada disso. O que me chamou a atenção aconteceu durante a volta, que em si, também não foi relevante.

Já era noite, mais ou menos vinte horas, não me lembro ao certo. Não havia estrelas à vista no céu; o tempo estava nublado. Toda a luz que tínhamos era proveniente dos faróis do automóvel e daquela grande cidade que podíamos avistar se olhássemos pelas janelas do lado direito do carro. Ah, que bela vista! A pista pela qual passávamos ficava em um relevo mais elevado que a cidade, e não muito distante dela. Isso permitiu que eu visse praticamente toda a extensão de casas e prédios que ali estavam postados… Esse foi o fato que me fez pensar. Tudo o que eu podia ver eram aqueles diversos pontinhos luminosos lá embaixo. E então, mesmo que essa situação não aparente ser nada de mais, ela fez desencadear dentro de mim uma série de sensações e pensamentos. Em meio a toda essa simplicidade, o meu eu interior acabou entrando em uma das mais complexas reflexões das quais ele já fez parte. Vendo todas aquelas luzinhas aglomeradas ali na minha frente me deram um conforto, um sentimento de aconchego e até mesmo de esperança. Pensei no momento: “eu não preciso de mais nada, tenho tudo o que preciso aqui na minha frente.”. Foi como se em uma questão de milésimos de segundos uma clareza descomunal, alimentada por toda a iluminação da cidade, tomasse conta da minha mente e me fizesse entender o mundo, a vida. Doce ilusão… Da mesma forma fugaz com que essa série de sentimentos tomou conta de mim, ela foi embora. E pior, deixou um buraco que de uma maneira mais rápida ainda foi preenchida por uma desilusão. Sim. Agora tudo o que eu conseguia pensar é que cada uma daquelas luzes também representava os problemas mundanos. Cada qual ali tinha os seus próprios contra-tempos; em média, uma família que compartilhava dos mesmos desgostos da vida. Dificuldades únicas: tão iguais umas às outras como cada indivíduo é congruente ao próximo. Antes, observando os pontinhos luminosos ali, todos juntos, era possível ter uma idéia de união, uma sociedade perfeita, na qual tudo fazia parte de um elo, uma corrente, e como manda a lei natural disso: todos ali dependeriam uns dos outros… Mas não é preciso muito esforço para perceber o quão utópico é pensar assim. Nas atuais circunstâncias do mundo, não sobra tempo e muito menos vontade para que todos ali realmente se conhecessem e fizessem disso algo essencial para a vida. O que pode-se ver é que ninguém se importa com ninguém. São poucos os que não agem com indiferença, com desprezo, com um tom de irrelevância para o próximo. E antes mesmo de entrar em uma viagem longa nessa linha de pensamento, eu já pude me deparar com problemas - infelizmente - comuns de praticamente todas as comunidades que existem: a violência, a fome, a miséria…

“Nem tudo o que aparenta ser realmente é”. Poderia existir frase mais perfeita pra descrever tudo o que eu disse até agora? Talvez. Por hora prefiro que seja essa mesmo. Da mesma forma, é possível abrir outra reflexão acerca disso: os segredos da vida, e muitas vezes a sua própria essência, está presente nas pequenas coisas, nos menores acontecimentos… Eu fico maravilhado de perceber que uns meros segundos da minha vida, vendo uma cidade ao longe durante o anoitecer, bastaram pra que eu chegasse a tal reflexão. Foi algo tão banal, e que ao mesmo tempo fez com eu viajasse em umas das mais significativas linhas de pensamento sobre as pessoas, sobre o mundo e por fim: sobre a Vida.

 E apesar de tudo isso, as luzes da cidade ainda continuaram acesas…